Laércio nunca foi o que hoje se ouve à vontade: "pró-ativo". Tímido como só, era bom camarada: honesto, bom ouvinte e apaixonado por Neli, seu primeiro e intenso amor. Teve o infortúnio de um dia beber demais e gravar uma foto no celular, que foi descoberta por Neli. Não convenceu a amada que era coisa da bebida, não dele.
Quando o encontrei, logo depois do ocorrido, estava de dar dó, sem saber o que fazer, e aqueles lamentos todos me envolveram mais do que o esperado. Parti para algumas sugestões. Primeiro, uma ligação no celular. A caixa postal dizia: "deixe seu número e assim que possível retornarei. Se você é o Laércio, me esqueça." Na segunda, sugeri flores, rosas vermelhas, que foram devolvidas. Queimadas. Tentamos também desaas agências de mensagens que vão até o local para desfiar palavras apaixonadas: houve dois pneus furados.
Restavam poucos recursos e o homem estava endoidecendo. Decidimos pela cartada final: uma chuva de rosas feita por um helicóptero. Laércio não quis fazer parte já que se cagava de medo de voar. Tudo acertado, eu estava lá, com esperança no resultado.
- E aí, deu tudo certo? A chuva de rosas foi bonita?
A cara do Laércio não era nada animadora.
-Deu certo. Cobriram a casa dela com flores.
- E?
- Ela fugiu com o piloto.
Do Zé Antonio, meu pai.
15 Novembro 2011
Neli.
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Eu não quero ter razão. Eu só quero te levar pro samba.
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14 Novembro 2011
Eu não suporto bandido, juro. A parte bandida em mim - e temos todos, ah, temos - vive vigilante, com medo de se tornar maior do que o aceitável. Não furo fila em banco, não exploro trabalho alheio, não fumo maconha, não cheiro cocaína, não flerto com a ilegalidade - porque, oh pá, o mundo já me convenceu que normas são necessárias pra convivência entre nós, imbecis da mesma espécie. Então, que não me joguem pedras. Nem pérolas, que acho cafona. Mas o cara que tá no crime não é só isso: o cara que tá no crime. É estranho pensar que o cabra tem mãe, pai e certamente já sofreu por amor, a não ser que seja um psicopata porque, como se sabe, direção de grandes empresas e tráfico de drogas são áreas de excelência dessa estirpe que não é chegada à empatia humana. Mas toda essa embromação pra dizer que a Época tem uma entrevista curiosa com o Nem, chefão da Rocinha. Caguei pro Nem e quero mais é que ele mofe na cadeia por algumas décadas, mas ninguém é só cara. Nem só coroa.
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12 Novembro 2011
São quase 11 horas da noite e eu estou na Gávea, perto de uma rua que será fechada daqui a pouco pra dificultar o acesso à comunidade da Rocinha (praquela paz verdadeira - hein - ser instalada...). Eu devia ir embora, eu sei. Devia pegar um táxi salvador e ir pro recôndito do meu lar, um bairro distante daqui, onde me aguarda a segurança de ser vizinha de um morro já em harmonia com a política de segurança pública do Rio de Janeiro. Mas o trabalho, o trabalho, não é? Prioridades são prioridades e eu, na base da pirâmide social, torcendo pro mês chegar até o fim do salário, faço mais é obedecer.
Mas eu me peguei pensando: eu não tenho medo. Isso é de uma arrogância, não? Não tenho medo de traficante, bandido, playboy ou general. Não tenho medo de tiro, de tombo, de poço, da morte, de qualquer fim de linha. Não tenho medo de pastel de feira, de amor mal parido, de veneno de cobra nem de dente de leão.
Na vida, evito as baratas. Evito com afinco e gritos de pânico.
E assombração, mas estas temo quieta, com vergonha.
(baratas e fantasmas me redimem?)
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07 Novembro 2011
Quem diria que a gente ia se topar por aí?
Quando ele nasceu, eu já era especialista na arte de me apaixonar. Ele mamava no peito e o meu já cativava solidão, e quando alguém o ensinou a ler, eu beijei pela primeira vez. Antes que tivesse terminado de desenhar as primeiras letras, eu já escrevia poemas de saudade de alguém. Na efervescência dos seus primeiros hormônios eufóricos, eu me casei pra fugir - e me encontrei. Ele entrou na faculdade no ano em que eu terminava a segunda, e quando eu me divorciei, ele fincou os pés no primeiro - e único - namoro sério (meu casamento foi minúsculo, a relação dele maior do que o provável). Eu me casei novamente, ele sentiu seu primeiro amor chafurdar. E no ano passado, quando um carro quase o tira da linha num acidente que deixou marcas no rosto, eu recolhia os meus cacos pelas ruas do Rio.
Mas veio o carnaval que me enlouqueceu, cidade em festa e eu presa num túnel que só eu via, cavava fundo, buscando subterrâneos na lógica. E eu disse: "eu preciso de um remédio que me acalme a angústia", e ele, numa inocência de menino, teimou que era só tocar a sua mão que tudo ia parar de girar. Eu duvidei, porque é próprio do mundo adulto ser feliz com reservas, mas não se vence assim a força de vontade desses anos juvenis.
E foi uma guerra. De amor, mas ainda assim uma guerra: soldados mortos pra todos os lados, generais bambos e bombardeios pela madrugada dos feridos.
Não faz muito tempo, faz muito tempo. Foi desde sempre, acabou de começar.
E eu desamadureci. Reaprendi a chorar, travo um longo caminho pela desindependência.
Ele e tão menino, ele tão maduro. Eu sou tão mulher, eu sou tão pequena.
E num tempo de já recolher saltos no escuro, eu sigo reaprendendo a amar.
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30 Outubro 2011
correm labaredas nas minhas minhas veias
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