Tinha sob o corpo uma colcha de retalhos: "pedaços coloridos de pano de chão", pensou pesado, enquanto um bafo quente se liquefazia no seu pescoço, vapor vagaroso em líquido de pressa escorrendo pela veia alta acima da saboneteira. O teto, algo branco e algo bolor, descascava irritantemente perto do bocal, de onde despencavam dois fios, um verde e um vermelho, entrelaçados como pernas. Tentava, sem sucesso, se concentrar num furo estacionado ao lado da luz fraca, porque o movimento rápido embrulhava seu estômago desde menina, mas a imagem saia do foco cada vez que o foco era ela. Contava os pingos de suor...um, dois, três...e pensou, pela milionésima vez na vida, que era o mesmo gosto da água com sal que a sua mãe a fazia beber para matar os vermes do intestino. Tudo ali tinha cheiro de cachorro molhado, do colchão, que gania, à roupa amontoada perto da porta, marcando com urina o território. “Será que ainda sei falar até dez em alemão?”, repetiu vidrando o olho numa nova mancha no céu escurecido que ocupava o limite do quarto. “Eins, zwei, drei...”, mas parou quando a força para lembrar o quatro foi maior do que o desejo de nem estar ali. Enfim, um golpe rígido a tirou do transe. Repentinamente mais leve, conseguiu sentir os bicos dos seios, agora livres da pressão daquele desejo que jazia em poros perdidos aqui e ali no embrulhado da pele desconhecida.
- Vai uma cerveja?
Ela negou enquanto via sair pelo batente da porta - estranhamente pintado de azul – aquelas costas sem nome. Respirou fundo, arquejando o limbo da madrugada metropolitana. E, só por desconsideração, voltou a sorrir.
23 Junho 2011
Da arte de contar tubarões
Postado por V&D às 17:12
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4 comentários:
Gio, vc continua imbatível!
beijos!
Que texto incrível...Vc é foda, Gio.
Demais, Giovana. Não me canso de ser seu fã incondicional. Saudades
Surpreendente!, como sempre. Prende a gente e não solta...
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