se eu pudesse te poupar, o faria. ou tomaria para mim este lugar (que eu já vistei tantas vezes, tantas tardes nada azuis, tantas noites de vigília ao caos). mas não sou deus, não sou nenhuma profeta. vez ou outra eu nem sou. no momento, eu sei e você sabe, só há lacuna, o vácuo do que já não era e mesmo assim seguia sendo. humanos que somos, vamos nos acostumando com o pé que não sai mais do chão, o ar que não se inala a plenos pulmões, a pequena sensação que nem treme, nem dorme. conformados com o destino (ou com um erro na escolha, ou com o caminho de antes e não de agora), vamos acordando e dormindo sem transformação, riscando os dias - e os anos que seguem apressados marcando os olhos e as mãos - em ciclos de um calendário meio morto, qualquer coisa que tanto faz. mas não tem que ser assim. não pode, mano, porque não nascemos para pouco, nenhum de nós (nenhum que viva). a gente aprende que tem que ser pouco para ser fácil, só isso. há uma contradição própria da existência que é não doer, mas, cada dia mais eu me convenço, cavar a terra do peito dói e ainda assim eu não quero cimento me isolando da batida do meu coração. então, me escute (sou a mais velha e mereço crédito): não é fácil, mas vai ser bom. logo mais, quando a cabeça estiver serena desta ressaca de mar bravio e os pés singrarem nuvens, você vai ver este tempo, todo ele (princípio, precipício e fim), como parágrafos bem escritos, ainda que desalinhados.
A luz há de chegar aos corações
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