07 Novembro 2011

Quem diria que a gente ia se topar por aí?

Quando ele nasceu, eu já era especialista na arte de me apaixonar. Ele mamava no peito e o meu já cativava solidão, e quando alguém o ensinou a ler, eu beijei pela primeira vez. Antes que tivesse terminado de desenhar as primeiras letras, eu já escrevia poemas de saudade de alguém. Na efervescência dos seus primeiros hormônios eufóricos, eu me casei pra fugir - e me encontrei. Ele entrou na faculdade no ano em que eu terminava a segunda, e quando eu me divorciei, ele fincou os pés no primeiro - e único - namoro sério (meu casamento foi minúsculo, a relação dele maior do que o provável). Eu me casei novamente, ele sentiu seu primeiro amor chafurdar. E no ano passado, quando um carro quase o tira da linha num acidente que deixou marcas no rosto, eu recolhia os meus cacos pelas ruas do Rio.

Mas veio o carnaval que me enlouqueceu, cidade em festa e eu presa num túnel que só eu via, cavava fundo, buscando subterrâneos na lógica. E eu disse: "eu preciso de um remédio que me acalme a angústia", e ele, numa inocência de menino, teimou que era só tocar a sua mão que tudo ia parar de girar. Eu duvidei, porque é próprio do mundo adulto ser feliz com reservas, mas não se vence assim a força de vontade desses anos juvenis.

E foi uma guerra. De amor, mas ainda assim uma guerra: soldados mortos pra todos os lados, generais bambos e bombardeios pela madrugada dos feridos.

Não faz muito tempo, faz muito tempo. Foi desde sempre, acabou de começar.

E eu desamadureci. Reaprendi a chorar, travo um longo caminho pela desindependência.

Ele e tão menino, ele tão maduro. Eu sou tão mulher, eu sou tão pequena.

E num tempo de já recolher saltos no escuro, eu sigo reaprendendo a amar.

4 comentários:

Ana... disse...

"E num tempo de já recolher saltos no escuro, eu sigo reaprendendo a amar."

Li e reli por inteiro. Mas fiquei presa neste trecho.

Tão Lindo!

Me senti tocada, ler algo assim, sempre alimenta a alma.

bj

Anônimo disse...

lindo. como deve ser!

Gio disse...

Ô, Ana... quer delícia ler dessa tua sensação. Brigada...
Bjs

Gio disse...

Anônimo,
ele é mesmo lindo, como deve ser.
:-)